sexta-feira, 20 de abril de 2018

ICArabe - Nota de repúdio às declarações da senadora Ana Amélia sobre os árabes


O Instituto da Cultura Árabe repudia veementemente a declaração da senadora Ana Amélia (PP-RS) em sessão do Senado transmitida pela TV que, ao criticar um depoimento da senadora Gleisi Hoffmann sobre o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva à rede de televisão Al Jazeera, relacionou a emissora a grupos terroristas.

A Al Jazeera é um dos grupos de comunicação mais respeitados do planeta. Além de praticar um jornalismo que serve de referência, entrevista e promove reportagens com líderes, artistas, intelectuais e ativistas que se identificam com a luta em defesa dos direitos humanos, respeitando a diversidade de opiniões.
Relacionar uma emissora de TV do mundo árabe a grupos terroristas, além de demonstração de desconhecimento em relação aos países árabes, é prática explícita de preconceito racial e islamofobiaA Constituição brasileira é clara quanto aos delitos de racismo e discriminação a quaisquer formas de sistemas religiosos e profissões de fé. Partindo de uma senadora da República, constitui-se em um constrangimento ainda maior para nossa a sociedade.
O Brasil historicamente é destino de imigrantes de diversas partes do mundo, entre eles, os árabes. Os imigrantes sempre viram no país um local acolhedor para recomeçarem suas vidas. Seu legado está presente em todas as áreas do conhecimento e na construção do próprio país.
Temos certeza de que a sociedade brasileira em geral não aceita e não compactua com atos dessa natureza, que incitam crimes de ódio, abrindo-se as portas à barbárie.
O ICArabe, organização autônoma, laica, de caráter científico e cultural, trabalha desde sua concepção para desconstruir esses estereótipos, via promoção e divulgação da rica cultura árabe. Valorizamos o caminho da harmonia entre as comunidades e entre os povos e o respeito às diferenças. Acreditamos que a integração entre as culturas e o diálogo são essenciais, assim como o respeito aos direitos humanos de todas as pessoas, brasileiras ou não. 
O incentivo a práticas preconceituosas, de qualquer natureza, e a difusão do discurso do ódio constituem atos hediondos e instrumentos de fragmentação e de segregação de um povo conhecido em todo mundo por sua união e amabilidade nas relações com todas as etnias de sua constituição.
Diretoria do Instituto da Cultura Árabe

Fonte: ICArabe.
Acesso: http://www.icarabe.org/node/3344   

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Tempos sombrios


Resultado de imagem para autoritarismo

Por Paulo Sérgio Ribeiro

Há momentos em que se faz necessário não subestimar o quão deprimente pode ser o cenário de uma época. A senadora Ana Amélia (PP-RS) se contrapôs à recente entrevista da também senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) à TV Al Jazeera[1] - na qual denunciava a ilegalidade da prisão do ex-Presidente Lula e o alinhamento do golpe de Estado em curso no Brasil com o interesse nacional estadunidense - e, pasme, confessou-se preocupada com a possibilidade de sua colega parlamentar ter feito uma “exortação” ao Estado Islâmico para “vir ao Brasil proteger o PT”.

Pouparei o leitor de objeções factuais à capacidade de uma parlamentar brasileira influenciar uma organização terrorista no Oriente Médio. Supô-lo seria um exercício de credulidade que beira ao ridículo. Todavia, não entendo que a senadora Ana Amélia seja uma estúpida, ainda que xenófoba. Capitalizar politicamente a ignorância tornou-se um recurso de poder de primeira grandeza, na medida em que nunca gerou tantos dividendos eleitorais estimular a regressão dos costumes daqueles que, ironicamente, rechaçam a política profissional. Um verdadeiro círculo vicioso.

Romper com tais vicissitudes nos leva a indagar por que a luta política parece ter perdido o seu potencial pedagógico se nunca tivemos à mão tantos meios favoráveis ao monitoramento reflexivo da vida social. Ora, alguém indagaria, por que ser demasiado pessimista se a Internet nos faculta tais “meios” diante dos falsos consensos fabricados na imprensa tradicional? Hoje, somos capazes de acessar um sem número de informações minimamente confiáveis e compará-las para obter, por exemplo, um olhar mais arejado sobre o mundo árabe do que a Ana Amélia.

Em tese, essa ponderação estaria correta; porém, a vida em rede difundida globalmente em nada assegura o reconhecimento da alteridade de um indivíduo, grupo ou nação como elemento constitutivo de uma experiência em comum. Este não reconhecimento assume a forma de uma comunicação hiperativa no tempo intemporal da Internet que, paradoxalmente, amplia a distância entre o eu a sua própria subjetividade. Construí-la requer tempo e este não se confunde com o frenesi dos cliques em busca da validação de um discurso autorreferente. 

Tanto na Internet quanto no bar da esquina, o galope acelerado da barbárie é protagonizado pelo "cidadão de bem" cuja segurança emocional é tributária da mediana mediocridade da “nobreza togada”. Este estamento  desembargadores, juízes, mas também procuradores e delegados federais  serve de suporte a idealização de uma ordem política em que conflitos distributivos sejam suprimidos ao invés de admitidos. Desse modo, as cruzadas moralistas contra a corrupção assumidas pelo Poder Judiciário não configuram apenas o expediente usual das corporações em disputa pela apropriação do excedente no Estado – a corrupção sistêmica que ninguém vê –, mas uma censura a toda e qualquer perspectiva que evidencie uma conexão de sentido entre a adesão aos valores tradicionais da classe média e a tentação das soluções autoritárias. 

O apelo a uma autoridade redentora do caos republicano que vivemos jaz um afeto primário – o ódio – socialmente referenciado  ódio contra os pobres  que, para ser saciado, demanda a inversão simbólica da relação de dominação: em um país no qual seis pessoas detêm a riqueza equivalente a das 100 milhões mais pobres[2], quem, sob o pavor-pânico de ser confundido com um daqueles milhões subalternizados, é adestrado para subir com êxito os degraus da hierarquia social converte-se facilmente em opressor, e o ressentimento quanto à altura (e agruras) daqueles degraus transmuta-se em agressividade autoritária contra qualquer um que  através da ciência, das artes ou do ativismo identitário  revele os limites de classe da sua vida pusilânime. 

Diante deste cenário, há de se perguntar se a ideia de nação ainda terá um lugar de pertinência entre nós ou se o Brasil se reduzirá a campo de pastagem para um povo-massa destituído de uma representação política que lhe renove a ideia de igualdade. 



Cineclube Marighella na UFF-Campos - 20/04/2018 - 18 horas


quinta-feira, 12 de abril de 2018

UENF 25 Anos: Conferência de Emir Sader

Professor da Uerj aborda dia 16 “A crise hegemônica no Brasil contemporâneo” 

Como parte das programações pelos 25 anos da UENF, o professor Emir Sader, da Uerj, ministra em em 16/04/18, no Centro de Convenções da UENF,  a Conferência “A crise hegemônica no Brasil contemporâneo”. Antes da Conferência, o reitor da UENF, Luís Passoni, será agraciado com a Outorga da Medalha Tiradentes, pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Os eventos terão início às 18h, com entrada aberta a toda a comunidade.
Graduado em Filosofia, mestre em Filosofia Política e doutor em Ciência Política pela USP, Emir Sader atuou como professor da mesma universidade nas áreas de Filosofia e Ciência Política. Foi pesquisador do Centro de Estudos Socioeconômicos da Universidade do Chile e professor de Política da Unicamp. Atualmente, atua como diretor do Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Uerj, onde é professor de Sociologia. Atua também como secretário executivo do Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales.
Emir Sader possui experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Estado e Governo. Colabora com publicações nacionais e estrangeiras, sendo membro do conselho editorial do periódico inglês New Left Review e um dos organizadores do Fórum Social Mundial. De 1997 a 1999, foi presidente da Associação Latinoamericana de Sociologia (ALAS).
Dentre mais de 30 livros escritos, Emir Sader é autor de “10 Anos de Governos Pós-neoliberais no Brasil – Lula e Dilma”, “Século XX, uma biografia não autorizada“, “A transição no Brasil: da ditadura à democracia?”, “Da independência à redemocratização“, “O mundo depois da queda” e “Vozes do Século“.

Fonte: ASCOM/UENF.
Acesso: http://www.uenf.br/dic/ascom/2018/04/05/informativo-da-uenf-06-04-18/

domingo, 8 de abril de 2018

Do cerco à prisão: a resiliência de um líder democrata




Por Paulo Sérgio Ribeiro

07 de abril de 2018 não cabe nas monótonas folhas do calendário, bem como não cabe neste texto uma síntese dos significados que poderíamos atribuir a ele. Nesse dia, assistimos à mobilização popular no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo/SP, iniciada com a decretação da prisão do ex-Presidente Lula, que ali se reunira com dirigentes do PT, lideranças de outros partidos do campo progressista (PSOL, PCdoB entre outros), entidades sindicais e movimentos sociais de expressão nacional, como o MST, devolvendo-nos a imagem da política como uma pulsão de vida que ainda habita em nosso agir.

A criminalização da maior liderança nacional depois de Vargas parecia chegar ao seu clímax e a narrativa que lhe servia de moldura encontrava finalmente o seu epílogo. Mas (sempre há um “mas”...) faltava combinar os detalhes desse roteiro punitivista com quem não tem outra vocação além do protagonismo na luta política: Lula. Posso imaginar a tensão que se acumulava sobre os seus ombros e o seu grupo de apoio para uma tomada de decisão cujas ponderações táticas mesclavam-se com o clamor pela resistência ao arbítrio. Ora, por que não resistir diante de uma orquestração de atores institucionais cuja competência para dizer o direito divorciou-se dos valores morais universalmente aceitos em torno da garantia de ampla defesa? Por que acatar uma prisão que se sabe ilegal?

Eu, sentado aqui no conforto do meu lar, batucando esse teclado, não me atreveria a julgar o posicionamento de Lula, pois a resposta que teve de dar àquelas questões cruciais foi o mais solitário dos atos, ainda que cercado por tantos colaboradores experientes. Provavelmente, para além do risco de invalidar tentativas futuras de recorrer da decisão, pesou-lhe o custo humano da desobediência civil em face de uma direita autorizada a tudo pelos “odiadores da política”, este poço sem fundo de ressentimentos em estado de prontidão para abater o “inimigo público” da vez.

Porém, dimensionando aquilo que confere à política o seu pão de cada dia – a luta simbólica – a prisão de Lula foi como “ele” quis. A exposição da capacidade de sacrifício de um senhor quase septuagenário foi a deixa que os seus algozes não esperavam conceder. A comunicação emotiva de Lula aliada à postura conciliatória com a qual conduziu os seus governos de inclusão ratifica a sua liderança carismática e, considerando a resistência em São Bernardo do Campo como um dos eventos mais dramáticos da república brasileira pós-1988, garante-lhe a posteridade – essa versão secularizada do sonho de imortalidade que os gregos antigos nos legaram. “Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia” – frase proferida por Lula em seu discurso antes de anunciar que iria se entregar à Polícia Federal e que resume à perfeição o alcance de sua presença no imaginário social.

Lula é um preso político. Estará o campo progressista à altura desse desafio? Haverá consensos mínimos para um debate programático que contrarie, parcialmente que seja, a sentença weberiana de que é improvável um líder carismático transferir a lealdade dos seus liderados a um sucessor? Nesse cenário de crise institucional, as esquerdas têm a chance de se reinventarem não sem antes correrem o risco de devorar a si mesmas.

Os dados estão lançados.

domingo, 1 de abril de 2018

Documentário: "Nossos mortos têm voz"

'Nossos mortos Têm Voz' é um grito pela vida - Créditos: Foto: Divulgação
O documentário ‘Nossos Mortos Têm Voz’, lançado no ultimo dia 27 no Cine Odeon, no centro do Rio de Janeiro, resgata a história da chacina cometida por policiais nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados, na baixada fluminense. O episódio, que completa 13 anos neste mês, deixou 29 mortos.

Um dos diretores do documentário que foi produzido pela Quiprocó Filmes, Fernando Sousa, destaca a urgência do tema da violência do Estado ser amplamente debatido, principalmente após os casos envolvendo a vereadora Marielle Franco, do PSOL, as chacinas na favela da Rocinha e no município de Maricá. Sousa ressalta que a violência na Baixada Fluminense tem peculiaridades. 

"A violência de Estado na Baixada Fluminense ganha uma configuração específica, na medida em que grupos de extermínio e esquadrões da morte se articulam com as diferentes instâncias dos poderes públicos locais, como o Legislativo, Executivo e o Judiciário. A gente parte da chacina na Baixada para abordar outros casos de violência de Estado na região, como casos de desaparecimentos forçados na Baixada," afirma.

O processo de produção do filme durou cerca de um ano. O diretor relata que o documentário é um grito pela vida e teve como principal desafio a abordagem do tema da violência do Estado com as famílias atingidas.

"Ao longo do processo de produção nós realizamos contato com 6 famílias e entrevistamos 6 mães. Foi um processo duro para todas as mães envolvidas, tratar deste assunto é sempre mexer numa ferida que não cicatriza. A dor e o sofrimento ficam muito marcados para a gente, porque parece que vão permanecer para sempre nessas mães. Foi um trabalho desafiante neste sentido, de uma responsabilidade muito grande de como deveríamos abordar esses casos", conta Sousa.

O documentário ‘Nossos Mortos Têm Voz’ contou com o apoio do Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu, o Fórum Grita Baixada e a Miserior. O filme não está no circuito comercial, a agenda de exibição  pode ser conferida na página do Facebook ‘Nossos Mortos Têm Voz’. Uma estreia oficial da produção acontecerá na Baixada Fluminense.

Fonte: Brasil de Fato.

Acesso: https://www.brasildefato.com.br/2018/03/29/documentario-narra-a-historia-das-vidas-interrompidas-pela-violencia-do-estado/