terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Conteúdo e programa da disciplina "O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil"

Prezad@s,

Disponibilizo o link onde se encontra o conteúdo programático e os textos da disciplina "O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil", criação do prof. Luis Felipe Miguel que será ministrada neste 1º semestre de 2018 na Universidade de Brasília (UnB).

Eis o link para acessar o material:

https://m.box.com/shared_item/https%3A%2F%2Fapp.box.com%2Fs%2Fbm0d52sjav3e975hmz0sifjktrsz4too







domingo, 25 de fevereiro de 2018

Golpe e autonomia universitária


Golpe e autonomia universitária

Por Paulo Sérgio Ribeiro

Luís Felipe Miguel é um cientista político que dispensa apresentações. Seus escritos são hoje referência em cursos de graduação e pós-graduação em ciências sociais. Professor e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), Miguel oferece neste semestre uma disciplina optativa – “Tópicos Especiais em Ciência Política 4: O golpe de 2016 e a democracia”. Como o próprio disse, trata-se de um ato “corriqueiro” que não deveria causar frenesi. Contudo, um alvoroço tomou conta de sua rotina profissional desde que jornais de grande circulação conferiram à sua disciplina um injustificado caráter polêmico e o Ministro da Educação, Mendonça Filho, declarou que encaminharia uma consulta aos órgãos de controle do Poder Executivo Federal a respeito da sua “legalidade”. Eu bem poderia encurtar esse texto afirmando o óbvio: questionar a vinculação à lei do ato de lecionar sobre o “golpe de 2016” é tão esdrúxulo quanto questionar um seminário dedicado ao “golpe de 1964” ou aos demais processos de ruptura institucional que dão relevo à república brasileira. Não obstante, dimensionar o desvio ético de Mendonça Filho exige-nos mais do que isso, considerando a sequência de violações à autonomia universitária iniciada num governo ilegítimo do qual o ministro nada mais é que uma caricatura.

A condução coercitiva do reitor, da vice-reitora e demais funcionários da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em mais uma ação espetaculosa da Polícia Federal (PF), intitulada acintosamente “Esperança Equilibrista”; o suicídio de Luis Carlos Cancellier, então reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que sofrera uma prisão arbitrária da PF na operação “Ouvidos Moucos”; a intimação do médico Elisaldo Carlini, professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), especializado em pesquisas sobre entorpecentes, para depor na polícia de São Paulo em inquérito no qual é acusado, pasmem, de “apologia ao crime” são sintomas da perda de centralidade da questão democrática. A autonomia universitária é uma orientação normativa ausente de sentido quando um regime democrático se fragiliza. Ora, assim como a autoridade política se exerce sob a delegação temporária do governados, estes mantêm-se soberanos se, e somente se, forem capazes de confrontar toda e qualquer autoridade que, incapaz de justificar racionalmente os seus atos, recorra à força e à submissão.

A censura às ciências sinaliza a percepção da universidade como um perigo subversivo ao regime de força instalado no país, privando-nos daquilo que é o sal da terra do mundo intelectual: o dissenso. Não que a universidade fosse imune ao autoritarismo como um modus vivendi dos brasileiros quando ainda vivíamos sob a ilusão de que a redemocratização passaria dos 30... A estrutura organizacional da universidade confirma a olhos vistos como a demarcação de áreas de conhecimento pressupõe a naturalização da hierarquia social dos seus objetos, uma espécie de luta de classes sublimada no tocante à distribuição de recursos para o trabalho científico. Contudo, a universidade talvez seja a única instituição na modernidade cuja razão de ser encontra-se na vitalidade de sua crítica interna. Herdeira do ideário iluminista, as universidades são o lugar em que teorias aparentemente sólidas se pulverizam à medida que um novo patamar da “maioridade” da qual nos falava Kant é alcançado, isto é, quando se renova a capacidade dos indivíduos pensarem por si mesmos, sem deferência a quaisquer argumentos de autoridade, redefinindo assim as fronteiras do conhecimento.

A docência e a pesquisa científicas – seguindo uma lógica que independe da tutela do Estado e da religião – relacionam-se com as práticas sociais extramuros da universidade, devolvendo um sentido à interrogação que tais práticas nos suscitam. Nada mais salutar, portanto, do que uma disciplina que promova a reflexão criteriosa sobre um fato que afeta a todos os brasileiros e os vincula ao mundo: a diluição do pacto social ratificado na Constituição Federal de 1988 ou, dito com todas as letras, o golpe parlamentar de 2016. Daria muito gosto estar matriculado numa disciplina como a ministrada por Luís Felipe Miguel. Seria instigante acompanhar o passo a passo desse debate na UnB o qual, talvez, tenha por pano de fundo um acerto de contas com certas expectativas no interior da ciência política que relativizaram a coexistência problemática da democracia e do capitalismo na "Nova República", sacrificando, pois, o nosso intelecto com a crença resignada de que “se as instituições funcionam, está tudo bem”.

Sim, elas “funcionam” e não, não estamos nada bem.

Nota de apoio ao Prof. Luis Felipe Miguel - DCP/UFF

A Ciência Política da Universidade Federal Fluminense, através do seu Departamento (GCP) e Programa de Pós-Graduação (PPGCP), vem manifestar pleno apoio ao Professor Luís Felipe Miguel, da Universidade de Brasília (UNB), pelas agressões sofridas ao seu direito legítimo de ministrar a disciplina "O golpe de 2016 e o futuro da democracia", no 1o semestre letivo de 2018, na UNB.
Assim sendo, o Departamento de Ciência Política e o Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, da UFF, também repudiam enfaticamente os ataques sofridos pelo Professor Luís Felipe que ferem intensamente à liberdade de cátedra e o Estado de Direito, este já gravemente atropelado desde o ano de 2016!

Docentes e discentes da Ciência Política, e demais apoiadores!

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Pausa tática

Prezad@s,

Comunico ao público leitor/seguidor  deste blog, provavelmente dois ou três leitores, que este que vos escreve fará uma pausa nas colaborações com a imprensa regional. 

Como quase tudo que tenho publicado é produto direto de minha relação com o jornal Folha da Manhã, este blog ficará sob a batuta de meu amigo-irmão de longa data, o Paulo Sérgio Ribeiro. Neste sentido, tenho certeza que tod@s estarão em excelentes mãos.

A razão para a pausa é simples: há outras demandas profissionais de curto prazo que me exigem plena atenção neste momento. Concluída a tarefa, volto para as colaborações regulares com fôlego renovado.

Hasta la victoria siempre!

George Gomes Coutinho

PS: Após postar percebi que o título original, "Pausa estratégica", estava errado. A pausa aqui é meramente tática. Não é estratégica. Conforme Clausewitz no clássico "Da Guerra", a estratégia refere-se ao objetivo maior, final e muitas vezes de longo prazo. Falamos do sentido quase ontológico da ação e da existência aqui. A tática é obrigatoriamente de curtíssimo prazo, circunstancial e dialoga com as contingências que obrigam a flexibilidade para que se possa atingir o objetivo maior.  

Intervenção para quem precisa

Intervenção para quem precisa*

George Gomes Coutinho **

Os dias imediatamente após as comemorações carnavalescas trouxeram para a população brasileira em geral, e a fluminense em particular, o inusitado. No dia 16/02 o anúncio intempestivo de uma Intervenção Federal pegou muita gente de calças curtas. Desconfio que até mesmo os policy makers fluminenses se viram em igual condição.

Afinal, que cazzo quer o Governo Federal na atual conjuntura? A medida foi recebida com críticas e ceticismo por uma enorme gama de pesquisadores. Cabe ressaltar o ineditismo da situação: nunca antes na História do Brasil redemocratizado assistimos algo assim. Não se trata, portanto,  de medida insignificante. É dotada de inegável excepcionalidade e implica o reconhecimento de que algo vai muito mal com as nossas instituições, a despeito da cantilena que apregoa o oposto desde 2016. Isso não desconsiderando a medida ser respaldada pela Constituição Federal de 1988. Para além disso, por qual razão seria o Rio o objeto da Intervenção? Justamente o estado da federação que não se encontra na pior situação em termos de violência urbana, não obstante a reconhecida tragicidade de sua condição estrutural.

Ainda, cabe perguntarmos se era esse o encaminhamento mais adequado, afinal a intervenção retira a autonomia decisória do estado no que tange a segurança pública. Isso é grave. Está se afirmando que o estado tornou-se incapaz de gerir este setor. Mas, seria só esse? É falta de expertise mesmo? A segurança pública é o maior e mais grave problema do Rio de Janeiro nesse momento? Oras, e as outras áreas fundamentais de atendimento da população? O problema é de gestão ou seriam opções suicidas de contigenciamento orçamentário que provocaram o atual cenário? No rastro das perguntas inconvenientes: como estabelecem um prazo, um limite temporal para a intervenção, sem terem delimitado objetivos claros?

Muitas dúvidas diante de tema tão espinhoso. E uma única certeza para o momento. A mudança de pauta na opinião pública. A segurança pública do Rio tornou-se, mais uma vez, o “assunto do momento” em ano eleitoral. Conseguiram o intento após a Reforma Previdenciária ter subido no telhado. A jogada é maquiavélica se foi para mera mudança de direcionamento dos holofotes.

* Texto publicado em 24 de fevereiro de 2018 no jornal Folha da Manhã de Campos dos Goytacazes, RJ.


** Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Nota de repúdio à violência contra a liberdade de cátedra

A Diretoria da ABCP vem manifestar a sua profunda preocupação com o intenção do ministro da Educação, Mendonça Filho, veiculada por diversos sites de notícias na quarta feira, dia 21 de fevereiro, de acionar os órgãos de controle para analisar a legalidade de uma disciplina a ser lecionada no Instituto de Ciência Politica da Universidade de Brasília (IPOL-UNB), cujo conteúdo refere-se à análise da democracia brasileira contemporânea, abrangendo o período que antecede a deposição da ex-presidente Dilma Roussef até os dias atuais.
A Diretoria da ABCP entende que a Constituição Federal de 1988, no seu artigo 206, II, garante aos docentes e discentes o pleno exercício da liberdade de ensinar e aprender, assim como faculta às Universidades brasileiras autonomia pedagógica. Ressalte-se ainda que a disciplina questionada pelo MEC é uma cadeira optativa de ementário livre, sendo facultado aos docentes montar o programa com o intuito de apresentar pesquisas recentes e debater temas da atualidade. A rigor, nenhum aluno ou aluna do curso de graduação em Ciência Política da UNB é obrigado a cursá-laPor outro lado, proibir a realização da disciplina impediria os discentes que assim o desejassem de cursá-la, o que fere, por suposto, o princípio da liberdade de aprender.
Diante disto, consideramos que, se a intenção manifesta do Ministro de fato se concretizar, a autonomia pedagógica das universidades brasileiras estará ameaçada, assim como os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição Federal. O ato não poderá ser avaliado de outra forma, senão como censura, característico de regimes de exceção.
Fonte: Associação Brasileira de Ciência Política.
Acessível em: 
https://cienciapolitica.org.br/noticias/2018/02/nota-repudio-violencia-contra-liberdade-catedra 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

INTERVENÇÃO NO RIO DE JANEIRO: FATOS, DÚVIDAS E QUESTÕES

INTERVENÇÃO NO RIO DE JANEIRO: FATOS, DÚVIDAS E QUESTÕES*

José Luis Vianna da Cruz**

Fatos

O Governo Federal intervém, apoiado na Constituição, na Área de Segurança do Estado do Rio, até 31 de dezembro deste ano, por suposta perda de controle do governo estadual sobre a violência. Um General vai comandar as ações das Polícias Militar e Civil, dos presídios, da área de inteligência, dos bombeiros. Vai reportar diretamente ao Presidente da República.

Com a intervenção, fica proibido alterar a Constituição. A Reforma da Previdência, considerada “questão de honra” para o Governo, as elites, a grande mídia, o Judiciário, o MP e o Mercado, não poderá ser realizada nesse período, pois implica em mudanças na Constituição, como bem lembra a reportagem da BBC sobre o assunto (http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43088935).

Dúvidas, questões e apreensões

O Exército já está, desde o ano passado, autorizado por Decreto do Presidente, a atuar na segurança do Rio de Janeiro. Sua atuação não resolveu nada.

O Rio não é o único nem o pior estado do país na questão da violência. Segundo o 11º Anuário de Segurança Púbica, do Forum de Segurança Pública, divulgado no site da revista EXAME, em 4 de novembro de 2017, o Rio é o 10º colocado em crimes violentos do Brasil (https://exame.abril.com.br/brasil/os-estados-mais-violentos-do-brasil-3/).

A presença de tropas, somente, não resolve a questão estrutural da violência, de forma profunda e por um longo prazo. Ocupação permanente? Como bem lembrou o sociólogo Renato Lima, do Fórum de Segurança Pública, com a proibição de mexer na Constituição provocada pela Intervenção, não será possível enfrentar as questões estruturais e as mudanças que podem garantir uma melhoria profunda e de longo prazo, tais como a natureza, as estruturas e as funções das polícias, dentre outras questões de fundo. Que efetividade é possível alcançar com esta medida?

Se vai ser feito “mais do mesmo”,o que já demonstrou não ser eficaz; se isso vai ser feito no décimo estado em gravidade da violência, qual a perspectiva de solução?

A Intervenção militar não foi precedida de nenhum estudo, estratégia, proposta ou projeto de enfrentamento da questão da violência. Se ela está em níveis insuportáveis em todo o país não seria um caso de ataca-la com políticas públicas, e não com violência?

Não podendo mexer na Constituição, até o final do ano, para que serve a intervenção? Especula-se que seria para encontrar uma desculpa para o Congresso e o Governo Temer escaparem da realização da Reforma da Previdência, cuja rejeição pode ameaçar as eleições dos membros do Congresso e do Governo.


Como ficam as eleições?Analisando-se politicamente, com tanta água a rolar por debaixo da ponte após a intervenção, quem pode garantir que serão realizadas? Lembremos que o Exército vai atuar também na questão dos imigrantes venezuelanos. Será um ensaio para um projeto de um golpe civil-jurídico-político-militar? Se a conjuntura caminhar para uma reação ativa da sociedade, dos movimentos e organizações populares, contra o Governo e suas medidas antidemocráticas e antipopulares, e as pesquisas mostrarem que os candidatos dos golpistas tendem a não se eleger e os candidatos contrários a esse Estado de Exceção e a favor do retorno e ampliação dos direitos e da democracia, tendem a ser bem votados em número e representatividade, para o Congresso e o Executivo, vai haver eleições em 2018? Será isso o que explica, em última instância, a Intervenção?

* Artigo publicado originalmente no jornal Terceira Via em 18 de fevereiro de 2018. O texto foi cedido gentilmente pelo autor para ser republicado por nós aqui no Autopoiese e Virtu.

** Cientista Social, Doutor em Planejamento Urbano e Regional.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Carnaval e os pés de barro da... mídia!

Carnaval e os pés de barro da... mídia!*

George Gomes Coutinho **

Após os festejos sob o domínio de Momo espero que meu público leitor tenha sobrevivido aos eventuais excessos permitidos nesta data. E como sabemos, sendo o Carnaval um de nossos ritos periódicos mais marcantes do calendário, agora 2018 arromba a porta. Não que indícios do que será esse ano não tenham sido apresentados em janeiro e na primeira quinzena de fevereiro. As peças do tabuleiro continuaram se movimentando. Algumas mais discretamente, afinal, os bastidores jamais pararam. Outras de maneira mais notória, vide o julgamento de Lula em segunda instância no final de janeiro.

Contudo há algo que chamou a atenção durante o período momesco e surpreendeu analistas, o que pode ser um indicativo de força política discursiva emergente para a conjuntura. O fato impossível de ser ignorado foi o desfile da escola de samba de São Cristovão no Rio, a Paraíso do Tuiuti. O desfile ocorrido na madrugada de segunda apresentou uma narrativa que estava sufocada pela grande mídia oligopolista, o que trouxe óbvio constrangimento para seus porta-vozes. Ao assistir o desfile carnavalesco o público atônito pode, mediante a catarse típica do festejo, se ver e trazer o “não dito”, o “impensé” lacaniano que pulula no inconsciente político. Tudo com uma eficiência comunicativa de dar inveja aos atores tradicionais da política.

Não se trata de novidade a crítica alegórica durante o Carnaval. Mesmo antes da Paraíso do Tuiuti blocos em todos país apresentaram críticas mandando às favas os conservadores. Contudo, o impacto simbólico provocado pelo pessoal de São Cristóvão em plena Sapucaí nos convida a uma reflexão. Os pés de barro da grande mídia foram expostos.

Não obstante o esforço metódico, entediante, monocórdico e totalitário da mídia tradicional em “vender seu peixe”, o que implica a defesa intolerante, acrítica e nada plural das reformas, aparentemente não houve a conquista do imaginário social. A Paraíso do Tuitui mostrou uma fratura no discurso, algo já apontando em pesquisas onde é evidente o rechaço à pauta conservadora. Se eu fosse membro das elites econômicas brasileiras veria o ocorrido como sinal amarelo. É preciso negociar com os de baixo. A outra opção é a barbárie e nada mais.    

*  Texto publicado em 17 de fevereiro de 2018 no jornal Folha da Manhã de Campos dos Goytacazes, RJ.

** Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes




sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

“Não sou escravo de nenhum senhor”


“Não sou escravo de nenhum senhor”

Por Paulo Sérgio Ribeiro

Por um mísero décimo, a Paraíso do Tuiutí não sagrou-se campeã do carnaval carioca. No seu lugar, levou os louros a Beija-Flor cujo samba-enredo – “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu” – ecoa uma narrativa do Brasil que tende a reduzir suas iniquidades (as massas “abandonadas ao léu”) ao monstro secular da corrupção, notadamente àquela corrupção atribuível aos donos do poder (“ganância veste terno e gravata”), oferecendo-nos um grito de agonia (“Oh pátria amada, por onde andarás?”) voltado a um horizonte de ação pontilhado pelo messianismo (“Sigo carregando a minha cruz, A procura de uma luz, a salvação!”). Digno de uma piada pronta, o samba-enredo campeão, que apresenta ressonâncias de discursos fomentados no e pelo noticiário da “Lava Jato” com o seu viés maniqueísta da política brasileira (notadamente quando a associa à experiência da esquerda no poder), fora sugerido por ninguém menos do que Gabriel David, filho de Aniz (Anísio) Abraão David, patrono da Beija-Flor e velho contraventor da Baixada Fluminense, condenado a 47 anos de prisão por comandar jogos ilegais no Rio, recorrendo da sentença no TRF da 2ª região. Em tempos de criminalização da política e politização da justiça, nada mais trivial do que a festa de Momo redimir seus filhos mais diletos sob o manto da indignação seletiva.

A Paraíso do Tuiutí, por sua vez, ergueu um perfeito contraponto à Beija-Flor já no título do seu samba-enredo: “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”. O lamento por um república carcomida cede lugar ao questionamento da escravidão como pedra angular de um processo de longa duração que jaz “um rito, uma luta, um homem de cor” no tempo presente. A constituição desse homem e mulher despossuídos como sujeito ainda não chegou a termo em face das metamorfoses do “cativeiro social” tão bem retratadas em suas ousadas fantasias e carros alegóricos e sua potência cívica revelou-se na imagem da “sentinela da libertação” contida no verso final do enredo já nascido épico. Uma das definições possíveis de “sentinela” é a de quem guarda posição para descobrir antecipadamente inimigos. Não seria por menos. A ação difusa desses “inimigos” se opera num jogo de linguagem mediado diuturnamente nos jornalões pela opinião publicada das corporações que parasitam o Estado. Em nome delas, o desfile das escolas de sambas, dirigido para a audiência da tevê aberta em detrimento dos trabalhadores da cultura que o viabilizam e dos foliões populares que o prestigiam, é submetido a uma única voz, a dos “locutores”.  

Esses bonecos de ventríloquo recrutados nas redações para narrar os desfiles sequestram com seus clichês surrados a intertextualidade própria dos sambas-enredo, confirmando-os como um espetáculo para as massas com o qual a dramatização da desigualdade é castrada de antemão pelo monopólio de representação da cultura popular reproduzido pela imprensa tradicional e por seus acólitos na academia. De um lado, temos uma criação cultural autônoma, a escola de samba, pois nela há não somente o advento de um novo gênero musical entre as décadas de 30 e 40, mas um “estar no mundo” que, antes de ter sido engolido pela indústria cultural, potencializava uma forma narrativa de nossas tragicomédias nacionais através da representação subversiva das relações de dominação entre classes e estamentos num Brasil que urbanizava-se acelerada e caoticamente sem priorizar a questão social pertinente à população negra do pós-Abolição; de outro, a tentativa de negar a complexidade do carnaval carioca por aquilo que ele ainda invoca de maneira provocadora: um lugar social que não se adequa facilmente à pretensão dos intelectuais classistas de tomarmos “os pobres” como objeto.

Em sentido lato, intelectuais todos somos. Todavia, o dilema que se insinua para as pessoas que fazem do pensamento (científico, artístico etc.) o seu ofício consiste no exercício da crítica do poder, à medida que requeira a interlocução com os dominados sem torná-la uma troca desigual, isto é, sem lhes retirar um tributo pelo privilégio do seu saber especializado enquanto mais-valia simbólica nas lutas por prestígio do campo intelectual. O código de análise inerente àquele saber não é abandonado pelo intelectual no debate público, mas este pressupõe um trânsito entre diferentes códigos na tarefa sempre inacabada de transformar a população em povo no Brasil. Neste sentido, Jack Vasconcelos, carnavalesco da Paraíso do Tuiutí, e Jessé Souza, autor de “A elite do atraso. Da escravidão à Lava Jato”, ao qual o primeiro parece se reportar diretamente, estão em sintonia ao alargar as fendas do bloco de poder que sustenta o governo ilegítimo. Ambos seguem de perto a recomendação de Joel Rufino dos Santos: os intelectuais classistas “se querem trabalhar enquanto intelectuais para os pobres, devem agir entre as classes, nos seus interstícios, alimentando o ‘espírito de cisão’”[1]. 

E não foi esse o “espírito” que rondou a Sapucaí? Desnecessário dizer que “viralizou” o vídeo em que os locutores da Globo mostram-se atônitos diante do reencontro do criador com a criatura (os “manifestoches”), assim como foi ensurdecedor o silêncio dos mesmos diante da denúncia contundente do golpe e dos seus subprodutos (invalidação de direitos com a Reforma Trabalhista, regressão dos indicadores sociais...) pela Tuiutí e simplesmente patéticos os cortes durante a transmissão do carnaval fazendo seus repórteres baterem cabeça sob os gritos a plenos pulmões do habitual “Fora Temer!” ou do irônico “Vai dar PT!” nas praças onde estiveram país afora. O “príncipe eletrônico” esvaneceu frente a uma folia politizada que, no Sambódromo, pediu passagem para a soberania popular ao invés de sucumbir à condição de plateia passiva numa democracia ferida de morte.  


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[1] SANTOS, Joel Rufino dos. Como podem os intelectuais trabalhar para os pobres? São Paulo: Global, 2004, p.253.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Os pés de barro do judiciário

Os pés de barro do judiciário*

George Gomes Coutinho **

É muito pouco provável que na atual conjuntura qualquer um(a) no Brasil não tenha recebido informações acerca da atual polêmica dos auxílios-moradia para membros “especiais” do judiciário. A mídia oligopolista, ou simplesmente a “grande mídia” (um punhado de empresas com predominância discursiva e simbólica sobre todo território nacional), optou por reverberar essa questão com estardalhaço em editoriais, análises comparativas e colocando seus mais ruidosos agentes para falar, tal como papagaios, sobre a questão. Escândalo fabricado.

Evidente que o judiciário só poderia ser um “judiciário da sociedade” na medida em que seus membros são recrutados aqui e não em Saturno ou no Éden. Em outros termos, seria pouco provável que todos os vícios e virtudes desta sociedade não seriam encontráveis no judiciário. Assim como também no mercado, no Estado de maneira geral, na política, Forças Armadas, na sociedade civil, nas religiões institucionais, etc..

Voltando ao judiciário, as informações acerca de determinados auxílios injustificáveis, aos quais, diga-se de passagem, determinados membros deste poder abdicam voluntariamente, também não são novidade nesta que é uma das sociedades mais desiguais do planeta Terra. Oras, os pés de barro são conhecidos por qualquer cidadão(ã) minimamente atento(a) há bastante tempo. Contudo, cabe perguntarmos: por qual razão só agora a grande mídia decidiu mostrar a nudez de seus ídolos perecíveis? Ainda mais no caso da generalização do auxílio-moradia, uma medida que entrou em vigor em 2015. Informo para quem me lê que estamos, não se espantem, em fevereiro de 2018. Demorou um pouco para saírem do silêncio ruidoso não é?

A conjuntura lida com um fato marcante após os 3 X 0 de Porto Alegre: a condenação de Lula que pode levá-lo para a cadeia. Se a grande mídia não é monolítica, e nunca foi em virtude de suas fraturas e disputas internas, não é exagero afirmar que Lula e sua candidatura anti-sistêmica (ma non troppo) fora do baralho atendam a objetivos hegemônicos dos que sustentam o discurso midiático. Talvez a crítica tardia da mídia ao judiciário não obedeça a fins tão republicanos como gostariam algumas de suas impolutas sereias.

* Texto publicado em 10 de fevereiro de 2018 no jornal Folha de Manhã de Campos dos Goytacazes, RJ.

** Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes


sábado, 3 de fevereiro de 2018

Discutir com Madame...

Discutir com Madame...*

George Gomes Coutinho **

Em uma noite quente de verão encontro amigos de longa data para uma cerveja, tira-gostos e o que chamo de “papo sem pauta”. É um tipo de conversa Freestyle anárquica onde há sequer a pretensão de concluir um mísero raciocínio. Na roda surgem assuntos diversos, desde a situação da Coréia do Norte até sobre qual seria a melhor maneira de fazer um camarão no bafo.

Tratou-se de um encontro de partícipes de nossa classe média. Entre setores mais radicais e caretas, do lado conservador desse grupo me deparo com uma figura que reencarna ciclicamente no espaço público brasileiro: a Madame. Explico-me.

Conheci a “Madame” pela voz docemente subversiva de João Gilberto há anos atrás. O gênio João imortalizou “Pra que discutir com madame”, composição de 1956 de Haroldo Barbosa e Janet Almeida, onde a tal “Madame”, dentre outras pretensões, se colocava como a encarnação do “bom gosto”. O bom gosto aqui se expressa no ódio, no desprezo ao popular, a tudo que seria coisa de “gentinha”. Não por acaso a argumentação da Madame da música redundaria em nada menos que acabar com o samba, esse estilo musical que “mistura gente”.  Em suma, a Madame para mim é um tipo-ideal, uma figura síntese que circula entre as classes média e  alta representando a soberba elitista e o nojo, o asco ao povo brasileiro.

Eis que Madame nos visita na polêmica proposta de reajuste da tarifa de iluminação pública implementada pelo governo Rafael Diniz. Madame cuspiu maribondos e ofensas. Realmente eu ponderei se a opção política do reajuste de sopetão seria a mais inteligente. Contudo, Madame não estava preocupada com essas frivolidades. Madame, com raiva, soltou a pérola: “Eu vou pagar mais pros pobres pagarem nada!”. Fiquei comovido com a demonstração de ignorância e tentei demonstrar que os pobres são ordinariamente os mais penalizados, os que mais pagam proporcionalmente impostos em nossa opção tributária. Que um gari, ao comprar uma lata de ervilha, paga o mesmo percentual de impostos que o dono de um grande banco. Madame gritou ainda mais alto. Desisti. Me lembrei do conselho na voz de Joãozinho: “Pra que discutir com Madame?”. Mudei de assunto e voltei para a receita de camarão.

* Texto publicado em 03 de fevereiro de 2018 no jornal Folha da Manhã de Campos dos Goytacazes, RJ.


** Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes